top of page

A questão agrária.

  • 2 de jul. de 2016
  • 3 min de leitura

Conhecida hoje em dia por ser levantada por movimentos de esquerda que distorceram tal problemática, como o MST, é na verdade uma reivindicação justa que reflete uma causa tipicamente tradicionalista e conservadora - a causa dos produtores sedentários pré-capitalistas.

Todavia, os conservadores abandonaram tal causa, antepondo-se ao partido dos grandes latifundiários que por sua vez inseriram a agricultura na sociedade de mercado, cujo principal objetivo é maximização dos lucros, prostituindo a vitalidade da terra. É um erro no mundo atual contrapor a cidade industrializada ao campo agrário e tradicional. Desde o século XIX, com a industrialização do Ocidente, em virtude da demanda da então cidade crescente, o campo passa a suprir o requerimento desta em suas necessidades. Na verdade, o dono de terra torna-se um empresário como qualquer outro.

Por coincidência, no mesmo período (séc.XIX), há uma expansão das terras aráveis no campo, visando o aumento da produção, junto com uma diminuição considerável da posse de terra entre os camponeses. Este período (1848-1970) marca o gradual fim da servidão na Europa, denominado por progressistas (seja liberais ou socialistas) como emancipação do camponês do Senhor e entendido por aqueles como algo revolucionário e benéfico ao processo histórico. Entretanto, tal "emancipação", pelo que monstra-nos as estatísticas da época, significou nada mais nada menos do que a perda da terra pelos camponeses e uma grande concentração de terras nas mãos de um senhor de terra agora praticamente um burguês.

Senhores de terra eram em muitos lugares aristocratas, mas estes nobres, como na Alemanha do II Reich, acabaram por aceitar e adotar o liberalismo no plano econômico compreendido por eles como uma irremediável condição histórica. Benéfica aos lucros, tal nova situação era favorável ao senhores ao sistema servil, pois na servidão o camponês troca sua produção por algo no mesmo valor. Consequentemente, a produção é mais reduzida, voltada à auto-subsistência. Agora, no sistema de mercado, a nova condição favorece uma maior mobilidade de mão-de-obra livre (sem terra) pronta para aceitar um salário cujo valor será bem menor do que ela produz; no que ela produz em uma terra que não é mais sua.

Há que lembrar que em lugares como os EUA, onde a mão-de-obra era escassa, a grande produção era realizada por novas técnicas e máquinas que dispensavam trabalhadores braçais em grandes quantidades. Em lugares como o Brasil, campeão em concentração de terras em poucas mãos, o fim da escravidão tem um sentido parecido com o da servidão, pois tanto a servidão quanto a escravidão eram vistos como empecilhos para uma farta produção, além de um custo elevado.

Na Rússia, após o fim da servidão em 1861, em virtude da pouca industrialização no país que impedia um certo êxodo rural, grande parte do campesinato livre passa a viver em comunas. Durante a revolução bolchevique, toda a dirigência comunista via em tal classe um obstáculo para o comunismo, pois os camponeses não queriam viver em grandes fazendas coletivas, mas possuir cada um um pequeno lote de terra, o que significava uma produção tímida. Os bolcheviques se comportaram como burgueses, pois seus objetivos eram os lucros para a URSS em suas exportações, ou melhor, para a nomenklatura soviética. A sovietização do campo empreendida por Stalin já era, ao contrário do que muitos pensam, uma das pautas de Lênin.

Capitalistas e comunistas, liberais e marxistas, ambos, viam o campo da produção autossuficiente como um realidade arcaica e reaccionária. Joseph Conrad, escritor britânico de origem polonesa, escreveu: "O campesinato tem sido sempre o elemento mais conservador do Estado...Seu apreço pela propriedade, seu amor pelo solo nativo o transforma no inimigo das idéias revolucionárias urbanas e um firme baluarte contra esforços social-democratas."

Abandonado pelas então aburguesadas aristocracias, a única pilastra na qual o homem do campo ligado à sua raiz histórica podia se apoiar era em sua identidade, ou seja, sua religião, tal como era catolicismo para os fenianos irlandeses contra o poder inglês protestante. Entretanto, parece que até mesmos os católicos tradicionalistas, com extremo medo de serem chamados de revolucionários, passaram a se opor à tudo o que era uma luta justa do homem comum para ficarem ao lado de latifundiários capitalistas cujo principal objetivo sempre foi o lucro máximo, tal como o burguês urbano. Um exemplo disso foi a TFP, dita católica tradicionalista, contrária ao liberalismo político mas altamente pró-liberal no campo econômico.

Deste modo, sobrou ao camponês apenas novas "teologias", ou melhor, apostasias, que em sua visão geral eram altamente anti-tradicionais, mas que neste ponto - a questão agrária - passaram a estender a mão àqueles, os desprovidos de terra. A Teologia da Libertação neste contexto da América Latina, apenas ocupou um vácuo deixado pelos conservadores, de uma causa que sempre foi conservadora.

Breno Baral


 
 
 

Comentários


Posts Em Destaque
Verifique em breve
Assim que novos posts forem publicados, você poderá vê-los aqui.
Posts Recentes
Arquivo
Procurar por tags
Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square
bottom of page